Outro dia me deparei com um dado que me chamou a atenção. No Brasil 51,7% das mulheres chefiam os lares. São elas as principais provedoras econômicas. Uma luz acendeu por aqui. Será que estamos em um momento de virada histórica na liderança?

               Sabemos que liderar é a capacidade de lidar com recursos escassos e ajudar as pessoas a navegarem por períodos de turbulência à medida que escolhem entre o que é essencial e o que é dispensável. Não tenho dúvidas que as mulheres que chefiam os lares no Brasil lideram. Entretanto, os dados sobre liderança nas organizações não contam essa história.

               Segundo o IBGE, em empresas médias e de grande porte, são os homens que ocupam a maioria das posições gerencias (60,7%). São eles que recebem 30% a mais de salário do que as mulheres nas mesmas posições. Na liderança dos pequenos negócios, o SEBRAE mostra que as mulheres representam 34,3%. A diferença de remuneração entre os gêneros também existe, mas cai para 11,45% se analisarmos o valor de hora trabalhada.

               De forma qualitativa explorei outras histórias. Descobri que as mulheres que lideram sofrem a influência da tal síndrome da impostora e de todos os mitos sociais referentes ao gênero: dependência, inferioridade, amor romântico, mulher maravilha. Para os homens, os vieses de confirmação, referência, aderência e tantos outros são os que justificam a escolha de homens em posições de liderança nas organizações.

               Claro que as diferenças não se relacionam somente ao gênero. Outros marcadores sociais como a classe social, escolaridade, cor, regionalidade, etc. também influenciam os dados. Identifiquei que os homens brancos ocupam a maioria dos cargos de liderança nas organizações (90,3%). Dentre as mulheres que lideram negócios (pequenos) e chefiam os lares temos as negras representando a maioria (58%).

                Neste país de enormes diferenças sociais e econômicas, o gênero interfere na liderança, mas não determina. Os dados estatísticos nos ajudam a compreender de forma macro como aquele tema se apresenta. Os dados qualitativos vão apontar os motivos. Independente do gênero sabemos que quem lidera possui ousadia e coragem para resolver problemas e atingir objetivos. Se quisermos ter mais líderes precisamos compreender e contar novas histórias para meninos e meninas. 😉

Paula Foroni é doutora em gestão de pessoas pela USP. Professora, facilitadora de grupos e consteladora organizacional. Atua como coach e mentora de mulheres que queiram liderar a si mesmas, pessoas ou negócios. Ama facilitar atividades em grupo e estar em círculo de mulheres.😊