Foto: Bia Shimu

              Tinha uma voz na minha cabeça que me dizia “isso é coisa de menininha, não vai dar certo!”. Não sabia que era a minha criança buscando a aprovação dos pais. Como é difícil sustentar nossas escolhas. Nesse caldeirão tem um mundão que reforça que ‘coisa de menina’ não dá dinheiro. Juntou a fome com a vontade de comer. Do mundo, não a minha.

               Me sentia exausta! Carregando um peso que não era meu. Mas como? Você chegou aonde poucas conseguiram chegar. Sem dúvidas eu escolhi estudar, minhas avós não puderam. Eu escolhi liderar, minha mãe sabiamente deixou que este espaço fosse ocupado por outra pessoa. Ascendi na minha carreira, assumi posição executiva, concluí o doutorado e superei a estatística dos que empreendem. Já se vão 9 anos como consultora e professora. Chegar nesses lugares me pareceu brincadeira de criança. Eu era vista e reconhecida. Mas por que eu me sentia exausta?

               O fim do doutorado foi um portal para mim. Sabe aqueles momentos da vida que marcam uma virada de chave? Demorei para entender por que eu não queria ir para a banca defender a minha tese. Para mim era o fim da minha jornada de sucesso no mundo do trabalho e o começo de uma nova fase que eu nem sabia qual seria. Fiquei em luto por 2 anos tentando entender qual era o meu desejo. Será que o trabalho que tinha me nutrido durante mais de 20 anos tinha perdido o significado na minha vida?

               Fui atrás de uma luz que se abria em meu caminho. Eu não queria desconstruir tudo. Só não conseguia mais ocupar aquele lugar. Fui acessar o meu sentir. Apesar de eu ser reconhecidamente boa em liderança, gestão e autoridade de fala, o que preenche o meu coração é o servir. Quando não tenho nome, ou sobrenome, nem títulos ou posições. Quando atuo facilitando constelações ou atividades em grupo nas quais não tenho a menor ideia de qual é o resultado daquele processo. É ali que quero estar! ‘Coisa de menina’, sabe?

               Mas mesmo com essa luz me guiando, algo dentro de mim não me autorizava. Dei o nome de impostora, era a minha criança que ainda buscava a aprovação dos pais. Constelei. Vi minha criança exausta em querer agradar e sem energia para seguir seus sonhos. Nessa magia as pecinhas foram para novos lugares. Sigo com o que é meu e devolvo tudo aquilo que não é meu para o local de origem. Sou capaz de fazer escolhas. Acolho minha criança interior. Honro e respeito a história dos que vieram antes de mim. A força de vocês me fez chegar até aqui. Estou pronta para seguir o meu caminho. 😉    

Paula Foroni é doutora em gestão de pessoas pela USP. Professora, facilitadora de grupos e consteladora organizacional. Atua como coach e mentora de mulheres que queiram liderar a si mesmas, pessoas ou negócios. Ama facilitar atividades em grupo e estar em círculo de mulheres.😊